São o acidente doméstico mais frequente nos idosos e a principal causa de morte acidental na população dos maiores de 65 anos. Falamos das quedas, que vão estar em destaque na 2ª Reunião Nacional do Núcleo de Estudos de Geriatria, da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI), um encontro que se realizou nos dias 16 e 17 de novembro, no Centro Cultural e de Congressos de Aveiro.

“As quedas ocorrem em 35 a 40% das pessoas com 65 anos e em mais de 50% da população com mais de 80. E a maior parte ocorre nos domicílios”, confirma Lia Marques, Assistente Hospitalar de Medicina Interna do Hospital Beatriz Ângelo, que alerta para as complicações graves que delas podem resultar, como a perda de autonomia e a imobilidade. “Sabemos que 5 a 25% das quedas na população idosa se complicam com lesões graves, como fraturas ou traumatismo craniano; 50% da quedas nos idosos condicionam internamento hospitalar e, destes internamentos, 40% terminam na institucionalização do idoso por perda de autonomia.

Acarretam, por isso, importante compromisso da qualidade de vida, “não apenas dos idosos que as sofrem, mas também de familiares e cuidadores, já que muitas vezes são o factor precipitante da transição entre um idoso activo e autónomo para um idoso totalmente dependente”.

Apesar de a sua incidência aumentar com a idade, os especialistas sabem que as quedas se devem a fatores de risco que estão bem definidos, “muitos dos quais corrigíveis, o que faz com que as quedas na população idosa tenham um grande potencial de prevenção”, confirma a especialista. Uma prevenção que passa “pelo reconhecimento do risco de queda enquanto grande e importante Síndrome Geriátrica”. De acordo com a especialista, “devem ser implementados instrumentos de rastreio para identificação do risco de queda e avaliação complementar para controlo de cada um dos factores de risco individuais para queda. Factores de risco extrínsecos para queda como trajetos mal iluminados ou a presença de obstáculos no percurso dos doentes podem ser facilmente corrigidos”.

Nesta situação, as novas tecnologias podem dar uma preciosa ajuda. Há anos que têm vindo a ser aplicadas junto dos doentes em risco de queda, “quer através de sensores que permitem detectar precocemente a queda num doente que reside sozinho, que através da utilização de dispositivos de comunicação que ao detectar a queda ativam um sistema de emergência em que é feito um contacto para a pessoa mais próxima do idoso para que seja imediatamente auxiliado, quer através de programas mais complexos que permitem não apenas identificar o risco de queda, como estabelecer programas de treino de equilíbrio quer no domicílio, quer em instituições.”

Do programa do encontro faz ainda parte a prevenção cardiovascular no idoso que, de acordo com Eduardo Haghighi, Coordenador da Unidade de Geriatria do Hospital Vila Franca de Xira, “passa pelo rastreio e tentativa de modificação dos fatores de risco cardiovascular tais como a dislipidémia, a obesidade, o sedentarismo, a hipertensão arterial, a diabetes mellitus ou o tabagismo”. É preciso, confirma, estratégias diferentes, o que depende da avaliação física, cognitiva, funcional, nutricional, psicológica ou social do idoso. “O idoso autónomo, robusto e vivendo com a família não terá um mesmo plano de atuação que um idoso dependente, desnutrido e institucionalizado.” É por isso que a Medicina Geriátrica é “uma Medicina personalizada e adaptada à realidade de cada idoso”.

Uma prevenção que deveria começar cedo. Mas não começa. “Infelizmente, nos nossos dias ainda pouco se investe na medicina preventiva, quando comparada com a medicina de intervenção. Tem que haver maior enfoque nos cuidados de saúde primários, que é onde a prevenção se inicia.” A este aspeto junta outro: “a educação da população. A população tem que ser instruída, de forma assertiva, sobre quais os riscos cardiovasculares e como lidar com eles. Tem que se desenvolver o culto do exercício físico e a instituição de uma dieta mediterrânica equilibrada. Os medicamentos também têm tido um papel preponderante, pois estes também contribuem para a prevenção de doenças cardiovasculares”.